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ANOTAÇÕES DIVERSAS II - Acervo Koatay 108

ANOTAÇÕES DIVERSAS II

Sem data
       Salve Deus, Mestre Jaguar!
        Saiba que, quando somos acessíveis a todos, emitimos raios de luz e amor. Filho, o teu progresso está no teu coração! Agora, o tempo está curto. Veja a inquietação que está crescendo em todo o universo. Filho, antes de semear temos que provar se somos humildes, mesmo sendo abnegados como somos.
        Aprenda a discernir, sempre, o bem e o mal. Quando o Homem retorna aos planos espirituais é interrogado para prestar contas do tempo vivido na Terra, e suas possibilidades.
        A fé é a determinação permanente de pensamentos construtivos. Tudo o que fazemos com fé e amor, atingimos o objetivo. Quando estamos confiantes, temos aguçados os nossos ouvidos e ficamos sensíveis aos fenômenos deste mundo, sinal evidente de que não estamos virados somente para nós. A melhor maneira de conhecer a nossa evolução é quando não passamos desapercebidos das dores alheias. Emitir o amor onde olhamos, e sentindo graças por tudo ou pouco que temos.
        Filho, aqui está uma explicação das atividades transcendentais, onde você, filho, terá que me ouvir para se conscientizar de sua missão, e como se faz um sacerdote, como eu fui preparada. Salve Deus!

        Minha vida seguia o curso normal de uma mulher viúva quando, aos 32 anos, começaram os primeiros fenômenos de minha clarividência. Começou, também, um período de indecisões, e tudo que eu havia planejado, em toda a minha vida, se transformava, sem que eu percebesse. Apenas, sentia que tudo mudava.
        Em 1959, tive que aceitar ir morar na Serra do Ouro, onde fundamos a União Espiritualista Seta Branca – UESB. Foi o mais terrível martírio, pela brusca transformação de toda a minha vida. Meus filhos Gilberto, Raul Oscar, Carmem Lúcia e Vera Lúcia estavam na crítica idade de estudos e em pleno desenvolvimento físico. Renunciei a tudo, porque somente um objetivo passou a existir: o Doutrinador!
        No dia 9 de novembro de 1959, recebi o primeiro mantra – Mayante. Minha cabeça se encheu de sons, e apareceu um lindo general, da época da queda da Bastilha, dizendo chamar-se Claudionor de Plance Ferrate e que, após me contar sua história, ditou a letra da melodia que eu estava ouvindo, a que chamou Mayante, o mantra de abertura dos nossos trabalhos.
        Naquele mesmo dia, eu teria que concluir um grande compromisso sentimental, e qual não foi minha decepção: comecei a ouvir Mayante soando em minha cabeça e senti profundo desprezo em tudo o que via e ouvia. Era um compromisso de nove anos, e eu sabia o quanto iria pagar por aquela renúncia… Porém, me desliguei sem vacilar, rompi o compromisso, e me voltei para minha missão. De joelhos, em frente ao Pai Seta Branca, entreguei meus olhos a Jesus, pela terceira vez.
        Comecei a reduzir as palavras, sem conseguir vencê-las, procurando, sempre, harmonizar em mim meus pensamentos em ações de graças do meu Sol Interior. Não havia mais ninguém no mundo. Fiquei esperando alguém que me conhecesse, e caminhava somente à noite, por caminhos invisíveis e sobre campos solitários. Chorei, filhos, chorei amargamente, mas, ao encontrar alguém, sempre ostentava um sorriso nos lábios.
        Dos requintes dos salões de uma vida de luxo, conheci a pobreza, a pobreza inconfundível. Enfrentei mil conselhos e seduções, mas nada me afastava do caminho do Bem, na convicção de minhas visões. Aquela mulher cheia de arrogância perdia, aos poucos, seu orgulho!…

        Deus não criou o Homem inteiramente livre. Eu precisava encontrar alguém do meu nível, que me compreendesse. Abordada por um grupo de Kardecistas, pensei em acompanhá-los, sair dali, daquela serra. Foi somente mais uma decepção, pois quando lhes disse que estava na missão do Doutrinador, eles nada entenderam. Fiquei confusa e decepcionada.
        Nesse mesmo dia, um colega de minha confiança, com quem tinha uma grande afinidade, chegou naquele exato momento e, sentindo a situação em que eu me encontrava, insistiu para que saísse com ele, me dizendo:
        – Você está fanática! Vai deixar seus filhos sem estudo…
        Sentia-me em terrível conflito. Aceitei o convite, e saímos, indo até a cidade de Alexânia. Minha cabeça era como um vulcão! Sentia-me, realmente, uma total irresponsável. Conflitos agitavam minha mente. Sentamos na estrada, e ele começou a falar sobre minha vida.
        – Eu compro um caminhão – continuou meu colega – e ponho na sua mão. Você vai me pagando aos poucos. Não posso imaginar uma mulher como você, única profissional neste país, mascateando!…
        Foi falando e me ridicularizou o máximo. Finalizou, dizendo, com lágrimas nos olhos:
        – Isso me corta o coração, Neiva! Nunca mais pisarei aqui, pois não suporto vê-la nessa miséria, nesse fanatismo. Pense em seus filhos, Neiva!…
        Ele se levantou e se despediu, dizendo que confiava no meu retorno às estradas, num dia em que juntos festejaríamos.
        Uma voz soou em meu íntimo. Era Vovô Indu, dizendo:
        – Vai, fia!…
        Continuei sentada na estrada e tapei os ouvidos para não ouvir o motor do caminhão que partia.
        – Vai, fia! – disse novamente Vovô Indu na minha audição.
        – Como sou querida! – pensei – Os espíritos preferem que eu desista da missão e me verem infeliz! Meu colega saiu tão amargurado…
        Quando me levantei para ir embora, comecei a ouvir os espíritos que chegavam, com seus sermões:
        – Neiva, nesta missão que lhe confiamos, você deve cuidar muito da sua conduta, não pode cometer um gesto irregular. Fica feio!…
        Porém, minha dor era tão grande que eu não queria ouvir coisa alguma. Resolvi que continuaria minha farsa como companheira de Getúlio, pois assim inspiraria mais respeito e não causaria tantos ciúmes.
        Sim, meu filho, na campo da vida, cada inteligência se caracteriza pelas atribuições que lhe são próprias. Senti que a estrada era longa e que se processa a cada passo, lentamente, pelo chão. “Sede pois, vós outros, perfeitos como, perfeito, é o Pai Celestial” (Mateus 5:48). Daquele dia em diante, transformei minha vida e a fiz um facho de luz e amor, sentindo que as minhas dúvidas eram imortais. Preenchi todas as minhas necessidades, fazendo das minhas ilusões um clarão de alegria a todos os meus desejos. Aos poucos, fui me realizando. Pelas curas constantes, fui superando minhas frustrações, me colocando à disposição da Espiritualidade, passando a viver sob um céu espiritual, numa outra natureza, que dia a dia me conscientizava da minha clarividência.

        Dois anos depois, em princípios de 1960, recebi de Pai Seta Branca a minha primeira missão. Eram seis horas da tarde e eu, mais do que nunca, sentia uma grande saudade. Dessa vez, porém, era algo diferente, mais fino, alguma coisa que eu não conhecia. Fui me sentar no alto do morro, e Pai Seta Branca chegou, começando a me mostrar meu roteiro e por tudo que eu teria que passar na missão, traçando, então, o meu sacerdócio, ao lado de Humahã. Senti forte dor de cabeça e pesada sensação de mal-estar. Quando dei conta de mim, estava diante de um velho oriental, de barba longa e trajando uma vestimenta com capuz e mangas largas, que me disse:
        – Salve Deus! De hoje em diante você terá a força de uma raiz!…
        A partir de então, tudo ficou difícil. Às 4 horas da tarde eu me sentia como se estivesse com uns 38 graus de febre, com a cabeça rodando, a ponto de não me aguentar de pé. Mas, deitada, as tonteiras se acentuavam e, numa espécie de sonho, sentia que me desprendia do corpo, com perfeita consciência. A cada dia, eu melhorava o meu padrão vibratório, consciente do meu trabalho. Recebi de Pai Seta Branca novas instruções: para entrar no plano iniciático eu teria que fazer as pazes com todos aqueles que se diziam meus inimigos…
        Então, já no terceiro ano de conhecimentos ao lado de Humahã, segui até as cavernas, com a missão de pedir paz e amor aos reis dos submundos. Humildemente, me transportava até cada um deles, e lhes pedia que firmássemos um acordo de paz, pois nossa lei não admitia demandas. Fui à presença de sete reis, que me trataram com maior ou menor ferocidade, mas aos quais tratei com amor e muita timidez, recebendo a concordância para o acordo proposto. No caso de Sete Montanhas, recebi até uma grande proposta para ficar em sua corte: ele me compraria de Pai Seta Branca, e eu lhe prometi que cuidaria do assunto. Fiz as minhas negociações e prossegui demonstrando tranquilidade, apesar do meu tremendo pavor…
        Era um período em que eu andava sobressaltada. Naquela tarde, o sol não aparecia, tornando tristes os meus pensamentos. Havia muito o que fazer, mas resolvi, por me sentir um pouco sem forças, ir me recostar no meu velho pequizeiro. Adormeci e iniciei um transporte. Entrei em um suntuoso castelo, onde tudo era luxuoso, e logo fui presa por dois homens grandes, com pequenos chifres, que me seguraram pelos braços e me conduziram à presença de seu poderoso rei: Exu Sete Flechas.
        Ele me encarou, zombeteiro, e vociferou:
        – Ela é inofensiva! Tragam-na até aqui! Já tenho conhecimento de seus contatos.
        Eu me aproximei e ele me falou:
        – Sua pretensão é muito grande em querer fazer um acordo comigo, pois não tem sequer um povo para defender!
        – Vou levantar um poder iniciático – respondi, temerosa – e só quero fazer isso após firmarmos um acordo, para que seu povo não penetre em minha área.
        – Já sei muito sobre suas intenções! – disse ele – Eu me comprometo a não penetrar em sua área, mas, antes, vou fazer um teste com você, para lhe fazer sentir a minha força.
        – Salve Deus! – eu só murmurei.
        – Quero ver o tipo de proteção que você tem. – voltou ele – Quero ver se ela vai livrá-la de mim! Amanhã, às três horas da tarde, vou arrancar todo o telhado de sua casa. Quero testar a sua força…
        Voltei ao meu corpo, sentindo o sabor desagradável daquela viagem.
        Entretanto, a ameaça não se concretizou.
        Tornei a voltar onde ele estava, porém em outro local, em outro salão. Ele fez o acordo, e jurou que, em verdade, jamais tocaria em meus filhos – os Doutrinadores. Mas afirmou que só se realizaria quando dividisse sua força comigo, e reforçou sua ameaça anterior.
        Três anos se passaram, e nada aconteceu. Até que um dia – eu já estava em Taguatinga – tive a sensação de perigo e me decidi a ir falar com ele. Pela terceira vez, ali estava eu, diante dele, que me recebeu com risos e deboches, e me afirmou que, às três horas daquela tarde, arrancaria o telhado de minha casa.
        Desafiadora, pensei:
        – Ora, não tenho o que temer! Se ele, até hoje, não arrancou o telhado de minha casa, não arrancará mais.
        Voltei, confiante, ao meu corpo.
        Por volta de duas horas da tarde, uma velha me procurou, pessoa dessas que vivem fazendo suas cobrancinhas, e começou sua obra:
        – Oh, irmã Neiva, como vai? Eu precisava tanto falar com você! Mas, dizem, e estou vendo que é verdade, que você não fala com os pobres…
        Eu fiquei possessa com a velha, por sua ousadia em me falar daquela forma, e, assim, baixei minha vibração! Foi o suficiente: ouvimos o estrondo do telhado e foi tudo pelo ar!
        Pensei:
        – Neiva, fracassastes depois de tantas instruções!…
        Voltei há três anos, e entendi que aquilo era mais uma experiência. Salve Deus! Ficara decepcionada com o Exu Sete Flechas e estava sempre preparada para seu ataque, mas falhara. Passei, então, a fazer uma preparação, quase um ritual, para entrar em uma caverna.

        1961. Continuava cumprindo minha peregrinação, sempre me lembrando do que dizia Mãe Tildes:
        – Neiva, fale somente o que convém à sua Doutrina!
        Fui, então, me acostumando, a cada dia, a cada hora, com as heresias de Mãe Neném. Minhas condições de amor me davam segurança para receber as contradições de meus princípios como ricas lições.
        No dia 9 de junho de 1961, estava deslumbrada com acontecimentos de meus desdobramentos, quando numerosa família me apareceu. Apertei cada uma das mãos que me eram estendidas, e me concentrei para ouvir o triste relato. O drama girava em torno de um senhor Aprígio, desencarnado há trinta anos, que deixara enorme herança em terras. Esse senhor fora um desajustado, construindo sua fortuna de forma desonesta, com muito derramamento de sangue, com seus jagunços forçando situações, matando por escrituras, e coisas assim.
        Estava vendo os quadros, quando alguém colocou a mão em meu ombro. Era Manoel, neto de Aprígio, e vi que ele era a reencarnação do avô, e o mais prejudicado dos herdeiros, pois sua parte era justamente uma terra com escritura falsa, enquanto as dos outros já estavam legalizadas. Em sua nova encarnação, Aprígio nada possuía. A terra que herdara fora, outrora, de uma viúva, cuja vida do marido havia sido tirada por Aprígio.
        Vendo ali, à minha frente, o “Aprígio Neto” pagando suas dívidas sem consolação, sem sentir a realidade, comecei a lembrar as palavras de Humahã:
        – Fia! Desde a criação do mundo físico, todos vêm tentando conseguir uma vida permanente. Mas, a lei da própria natureza física é imutável: ninguém escapa das mãos da Morte! Na verdade ninguém pensa em morrer, envelhecer ou adoecer. A lei da natureza não muda a imunidade contra a morte. A Ciência Nuclear descobre muito, porém sempre estaremos nas mãos das moléstias, da velhice, da morte e do nascimento. Sendo assim, temos por obrigação corrigir o nosso conhecimento.
        Finalmente, Aprígio era o próprio neto, com 23 anos, e o mais prejudicado de todos aqueles herdeiros. Fiquei muito assustada, mas, com o meu deslumbramento, à noite fui bisbilhotar os detalhes de tudo aquilo. Fui à minha pequena pracinha, e podia ouvir o murmúrio de casais que chegavam de diversos trabalhos. Em pensamento me veio a voz de Humahã:
        – Ajudar sem participar! Cuidado. Você não deve dizer que o tal Aprígio está reencarnado em Manoel, seu neto, porque não podemos causar ansiedade para os outros pelas ações de nosso corpo, pelos pensamentos de nossa mente e nem por palavras…
        Voltei para o corpo um pouco mais equilibrada.
        Naquele mesmo dia, me aconteceu uma coisa que eu sempre temia: Meu companheiro me chamou e disse que não poderia continuar comigo, que já estava vivendo com uma moça.
        Tive um choque, e não admitindo o que ouvia, senti que desabava internamente, ficando tonta e sem destino. Voltei, então, a buscar Humahã, para que me aconselhasse, e ele me disse:
        – Fia! Terá que passar por todas as provações!… Impuseste ao seu companheiro viver ao seu lado. Mas, hoje, ele se cansou e, pelo que sei de Seta Branca, ele tem uma filosofia adequada para o Terceiro Milênio, para a Nova Era: O Homem, vivendo pelo amor à família, nunca ficará infeliz ou aflito por coisas desejáveis ou indesejáveis , criadas pela mente, e se torna um puro devoto na sua personalidade em Deus. Tudo o que o Homem forja em sua mente está errado! O Homem deve se sentir seguro em seus sentimentos. Vocês não se amam e, portanto, não poderiam viver assim. Lembre-se, sempre, quem enquanto tiver um corpo material, terá que enfrentar todos os pontos físicos desse corpo, descobrindo o que lhe é saudável. Não fuja às leis físicas, pelas quais terá que conquistar sua identidade espiritual. Está com seu orgulho ferido, porém, tão logo pague o seu débito, ficará livre desse companheiro. Não se identifique, falsamente, com o seu corpo material, grosseiro, nem considere que os corpos se relacionam com corpos. São suas propriedades, mas cada um gera em sua lei. Não é vantagem inserir seu corpo do que seja, continue, normalmente, respeitando seus sentimentos nas leis que sempre lhe regeram. Estou certo?
        Respondi afirmativamente, porém me sentia arrasada, humilhada perante toda nossa comunidade. Em busca de mais orientações, perguntei:
        – E quanto a Mãe Neném?
        – Realmente, o que queremos é que não se sinta frustrada. Neném lhe reprova porque sua vida conjugal a traumatizou a ponto de perder o equilíbrio. Este é um detalhe corriqueiro. Se você não fosse uma criatura perfeita, não conheceria, com tanto amor, os seus irmãos. Não queira passar por religiosa, simplesmente pela forma ou pelo nome, não seja um falso profeta!… Pobre Neiva! É tão jovem para saber da morte…
        Falou como se eu não estivesse ali perto… Dei um gemido, sentindo que meu peito estava se arrebentando, e ele continuou:
        – Conhecerá a verdade, filha, e ela a libertará, porque a luz da verdade irá resplandecer em você. Sua tarefa deve ser encarada como um santo sacerdócio, e a sua responsabilidade é grande demais, pela força que lhe foi confiada. Você deve sentir a mais doce e mais humilde tolerância, sim, a tolerância com amor! Detenha-se no lado bom das pessoas, das situações e das coisas. Cria esperança e otimismo onde estiver, em favor dos outros, sem pedir nem esperar recompensas ou remuneração. Auxilie muito e espere pouco ou nada. O seu mundo estará sempre aos seus pés, porém, nunca irá achar lugar para seus desejos. Viverá só e carente, porque não terá irmã nem irmão por estes vinte anos! A noite iluminará os pequenos diamantes de sua cabeça, porque cairão das estrelas. O que você tem a fazer é marcar o local do seu altar, do seu sacrifício, para a grande convulsão que está escrita, rumo ao largo portão da nova aurora. O seu som estará sempre unido aos apelos da noite e do dia…
        Calou-se. Envergonhada, perguntei qual o meu verdadeiro nome.
        – Neiva! – respondeu – Ainda se chama Neiva, e só mudará seu nome quando forem contados, em sua cabeça, cento e oito pequeninos diamantes. Então, não mais sentirá qualquer receio deste mundo.
        – Eu sofro, reclamo, porém minha consciência é pura… – eu disse.
        – Sim, e ai de você e não fosse!
        – Respeito a luz do Evangelho e tudo o que me compete entender…
        – Sim, Neiva, sei disso. Estarei consigo até o fim, porque não pode haver felicidade sem esclarecimento, digo, a felicidade real. Filha, sei que o conhecimento dessa onipresença divina ainda não penetrou na sua mente. Por isso não lhe acode nos momentos de suas necessidades. Filha, és dura como uma pedra, porém, eu saberei lapidá-la.
        Olhei para aquele velho de barbas longas, cor de canela, pés descalços, envolvido por um manto branco encardido. Despedi-me, e sai dali com o coração pesaroso. Porém, desta vez, sentindo saudades e tristeza.
        O dia amanheceu. Sai do meu quarto ouvindo vozes, mil perguntas e respostas. Buscava lembrar o que estava acontecendo, o que acontecera, e nada conseguia coordenar. Nisso, vi dois jovens que se pegavam, numa luta terrível. Não vacilei: corri para apartar a briga.
        – Santo Deus! – gritei, pegando um pedaço de pau e correndo para os dois contendores.
        Minha cabeça rodou, e ouvi a voz de Humahã:
        – Filha, a força não está na violência, e, sim, na moral!
        Lancei fora o pau e gritei, porém, desta vez, sem partido:
        – Pai Seta Branca!
        Realmente, o conflito acabou, voltando tudo ao normal. Foi explicado que era a passagem de uma falange de cobradores, e tudo terminou bem.
        Sentei-me num tronco, pensando na incoerência dos fatos:
        – Meus Deus! Como poderei vender? Como, um dia, será minha vida? Eu pensei que o senhor, meu mestre, fosse curar o meu coração, a minha dor…
        – Não, filha, o nosso coração só se cura pelo esclarecimento!
        Comecei a me preocupar com tudo aquilo, e perguntei a Humahã:
        – Quem fui eu? Por que me deram tudo e, agora, estão tomando?
        – Neiva, ouça: ainda terá que encontrar Marco Antônio para, então, formar o seu império perdido… O mundo lhe chama, não ouve?
        – Ó, meu Deus! – gritei – Agora me sinto fraca, doente… Como vou viver? Meus filhos sem estudar, sem eu para orientá-los… Como será minha vida?
        – Sim, você é uma clarividente. Poderá saber de todo o seu futuro. Já estou cansado dos seus gemidos, das suas queixas. Assim, não chegará a lugar algum!…
        Nesse momento chegou Mãe Neném, praguejando e disse:
        – Não aguento mais!… Vou-me embora. Não aguento mais esses caipiras que só querem receber remédios e explorar a gente!
        Ouvia, simultaneamente, as duas vozes e, no meu íntimo, ia recebendo a minha lição. Envergonhava-me de tudo e, agora, quem tinha vontade de correr era eu. Realmente, eu estava ficando indefesa com tantas reclamações… Mas, quando pensava que meus filhos ainda não tinham feito o ginásio, ficava horrorizada.

        Estava caindo uma forte chuva. Comecei a me preocupar, pensando como sustentaria aquela gente se não pudesse mandar buscar mandioca para fazer farinha, que era do que vivíamos. Súbito, o tempo mudou e surgiu o Sol. Apressei-me a sair, para cuidar de tudo, e, fora da casa, olhei para o céu e vi uma ave que voava bem alto. Mãe Tildes se chegou, dizendo:
        – Veja aquele pássaro, Neiva… Jamais se ouviu dizer Ter caído algum por falta de alimento. Assim, fique tranquila, pois teus pequeninos filhos, como as aves, têm as bênçãos de Deus! Não poderá, nunca, tomar conhecimento de um sonho quando ele está presente. Você foi iniciada. Iniciação significa estar em contato íntimo com alguém que está acordado. Todos dizem que, no mundo físico, os loucos não gostam de viver. Porém, é tão difícil um suicídio! Neiva, se puder esperar, mesmo que seja um ano, sua mente se tornará silenciosa por si, automaticamente, e as perguntas, pouco a pouco, irão perdendo o sentido. A mente simples é inteligente, é fértil. Estabeleça uma norma às suas perguntas, e as gerações exaltarão em você, filha. Não queira saber, agora, de onde vem e nem para onde irá. O vento lhe levará para longe e lhe dirá tudo. Quem vem por ele a conhece e a ama. Lembra que não cai uma só folha de uma árvore que não seja pela bênção de Deus! Pelo vento, sim, pelo vento e pela chuva…

        Era noite, e eu estava exausta. Rolava na cama, quase em desespero, quando, de repente, adormeci ou me transportei. Cheguei em uma pracinha que, há muito, me era bem familiar. Bem consciente, via e ouvia o que se passava ao meu redor, quando senti alguém sentar bem perto de mim.
        – Sou Amanto! – disse o recém-chegado.
        – E eu sou Neiva! – respondi.
        – Você não me conhece, Neiva. Sou o Inca, um dos componentes de Seta Branca.
        Meu primeiro impulso foi fazer muitas perguntas, porém lembrei-me do que havia ouvido de Mãe Tildes – “mente simples, mente fértil” – e me contive. Sabendo o que se passava em minha mente, ele sorriu e disse:
        – Você está recebendo ricas lições, Neiva. É prisioneira, sim, prisioneira da poeira da Terra. Porém, está sendo preparada para receber uma corrente inquebrantável…
        Depois de me refazer da resplandecente figura de Amanto, fiquei pensativa, até que ele me disse:
        – Neiva, você me inspira a mais alta confiança. Estamos aqui, na Ponta Negra, e vejo que você não está com medo, está?
        – É, não estou com medo!
        Ele sorriu, porque, na verdade, eu estava com as pernas tremendo de medo e não percebia.
        – Ó, meu Deus! – exclamei – Até aqui?
        – Sim, Neiva! Aqui é a continuação da Terra e, daqui, partimos para diversos planos. Este grande vale é o mais triste: é o Vale Negro dos incompreendidos. Aqui, desta Ponta Negra, podemos visualizar tudo e buscar energias em diversos locais – heranças, charmes para a lucidez…
        – Lucidez? – perguntei, já me encontrando menos confusa.
        Sim, lucidez! O espírito, ao receber a bênção de Deus, se esclarece e toma seu destino. Aqui onde estamos, nesta pracinha chamada Ponta Negra, é o limite deste tenebroso vale. Veja, ali, uma enorme cerca magnética, que protege o vale dos bandidos do espaço. Eles chegam até ali perto, porém não ultrapassam aquela cerca.
        – Por que bandidos do espaço? – voltei a perguntar.
        – André Luiz colocou tudo de uma maneira fácil de ser entendida na Terra.
        – Não conheço bem André Luiz, – eu disse – porém conheço o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
        – Sim, Neiva, porém são perigosas as suas interpretações. O Evangelho, realmente, o santo Evangelho… Você precisa estrutura, base para interpretá-lo.
        – Jesus! – exclamei num gemido.
        – Neiva, as estranhas narrações contidas na lenda dourada, por mais fabulosas que sejam, só refletem a mais alta antiguidade cristã. São mais parábolas do que história. Não entre na estrada antiga, Neiva, porque você veio reformar. Não tem mestre? Não lhe foi dado um magnífico tibetano? Não vive a filosofar com ele?
        Empolgada com a exuberante figura de Amanto, ia dizendo: Sim! Foi quando apareceu um velho com ar muito desgostoso, que vive enclausurado. Quase morri de susto ao ver Humahã à nossa frente! Os dois se alegraram com o encontro, enquanto eu, envergonhada, me sentia como um peixe fora da água. Partiram, filosofando animadamente, e retornei ao meu corpo.

        Já eram oito horas da manhã quando me levantei. Desinteressada, fui em busca de Mãe Neném, para relatar o que acontecera comigo à noite. Tive, então, uma grande decepção, pois me informaram que Mãe Neném havia ido visitar Chico Xavier para saber se o meu comportamento estava correto.
        Estava amargando minha decepção quando Jalico veio me chamar, para que visse um terrível fenômeno. Junto com ele vinha uma mulher, que trazia uma criança enrolada numa toalha. Quando a mulher descobriu aquela criança, quase morri de susto: com cerca de 60 centímetros, ela era igual a um sapo – cabeça, mãos e pés! Comecei a gritar, e logo me tiraram dali, mas aquilo me desequilibrou por alguns dias…
        Havia, em frente da minha casa, uma frondosa árvore, junto à qual fiz um banquinho de tábuas, onde gostava de ficar, passando horas meditando, ou melhor, curtindo as minhas saudades.
        Naquela tarde, soube que Mãe Neném chegara, mas não me procurara.

        Eram quatro e meia da manhã quando bateram na minha janela. Era um grupo de pessoas que estava trazendo Rita, filha de Dita Vermelha, sobre uma maca, um banguê, que havia sido mordida por uma cascavel. Gritavam por mim.
        Levantei-me depressa, ainda me lembrando dos lindos olhos verdes de Johnson Plata que, havia pouco, estavam me observado. Porém, para minha surpresa, quem apareceu foi Vovô Indu, que foi logo dizendo:
        – Depressa, filha. Pegue calomelano e dois vidros de óleo de rícino.
        Comecei a dar ordens e mandei levar a enferma para uma cama. Não sei como consegui que ela ingerisse uma cápsula de calomelano e os dois vidros de óleo, pois a moça perdia sangue pelos poros e pelas gengivas! Já me sentindo mais calma, pois havia feito o que Vovô Indu mandara e estava consciente de que não havia outro recurso, sentei-me para aguardar a marcha dos acontecimentos. Só havia socorro médico em Brasília, a duas horas de viagem de carro, ou, indo de ônibus, a Anápolis ou Goiânia. Como não dispúnhamos de carro e não havia tempo a perder, tinha que me valer da ajuda da espiritualidade. Mas, e o medo da responsabilidade? Afinal, se tratava de uma jovem de 19 anos, e a cascavel que a picara era uma cobra adulta, com não sei quantos anéis no rabo!
        Apreensiva, vi o dia amanhecer. Saí da casa e encontrei Mãe Neném, que me encarou como se eu tivesse cometido um crime, e falou rudemente:
        – Neiva! Cruz credo! Você está louca! Imagine se esta mulher morrer!…
        – Fiz o que Vovô Indu mandou… – eu respondi.
        – Quero ver!… – tornou Mãe Neném em tom crítico.
        – Não, Mãe Neném, não fale assim, pelo amor de Deus! Ela ficará boa!
        Ouvi Vovô Indu me alertando:
        – Cuidado, Neiva! Só poderá contar com a vitória às 6 horas da tarde, e tudo vai depender de sua fé e de sua confiança…
        – Ó, meu Deus! – gemi, sofrida, lembrando-me da ciência e da fé, uma das primeiras lições de Humahã.
        Quando chegamos às 3 horas da tarde, a moça já não falava. Perguntei ao Vovô Indu o que poderia ser feito.
        – Na Terra, você já fez tudo, – respondeu-me – porém, lembre-se de que a força da mediunidade não tem limites…
        Continuei fazendo minhas preces, até que Mãe Neném chegou, dizendo:
        – Neiva, não tive tempo de lhe contar sobre meu encontro com Chico Xavier. Ele disse que a sua clarividência é algo magnífico, mas que você deveria estudar mais, procurar a Federação Espírita, pois, da forma que está corremos muito perigo. Você não acha que ele tem razão?
        – A senhora pode ir, que eu ficarei aqui! – eu disse com certo desprezo.
        – Olha, Neiva, eu acharia bom se você pudesse ir. Lembre-se de que o Chico é um santo…
        – Não tenho dúvidas sobre a santidade dele, por isso acho que a senhora deve ir. Quanto a mim, não quero nada, neste mundo, que anule a minha personalidade. Vá a senhora! E vou lhe dizer mais: ou a senhora fica aqui ou fica lá!
        – Cruz credo, Neiva! Temos que saber o que é melhor para nós. De mais a mais, aquelas histórias que você me contou, sobre os tratos que fez com os exus, sou franca – não gostei!
        – Contou isso ao Chico?
        – Claro! Ele se limitou a sorrir.
        Ó, meu Deus! Pensei comigo: Por que tudo isso? De que me serviriam estas humilhações? Olhei Mãe Neném e procurei me colocar no lugar dela. É, talvez eu fizesse o mesmo…
        Em meio aos meus conflitos, ouvi me chamarem do local onde estava a jovem. Corremos, apavoradas, pensando no pior. Santo Deus! A moça estava sentada na cama, queixando-se, apenas, de fome! Eu e Mãe Neném nos olhamos com carinho e amor e, juntas, fomos ao Templo, agradecer a Deus.

        Brigas, paixões, conflitos, realizações…
        Após alguns dias, me dirigi para o que era meu. Como já disse, era um lugar onde o morro era muito a pique, e eu me sentava como se fosse uma poltrona. Caminhava para lá, como de costume, quando uma grande força me impediu, e ouvi:
        – Volte! Volte já!
        Sem entender, eu voltei correndo, sem saber se aquela “coisa” era má, se gostaria de me arrebentar. Que coisa horrível! Chamei Mãe Tildes, e ela me explicou que era a voz direta deslocada pelo neutrom, a força que divide os planos vibracionais.
        Voltei para casa. De longe, ouvia as meninas cantando. Fiquei parada por alguns minutos, e logo vi surgir uma linda Lua no céu. Fui me sentar em um banco, sob um pequizeiro, e logo apareceu Gertrudes, me trazendo um prato feito, que comi sem saber, na realidade, o que comia.
        Sim, muitas coisas aconteceram… Sozinha, naquela serra, sempre com mil preocupações em minha cabeça! Sozinha, sim. Como é triste a solidão…
        Lembrava-me das queixas dos mal-amados, e pensava na solidão que sentiam. Também comecei a fazer críticas, julgando: eles estão sozinhos por falta de tolerância… Devemos pensar na solidão, na velhice…
        Naquele instante, Getúlio, meu companheiro, chegou de mansinho e, segurando os meus ombros, disse:
        – Já pode me perdoar, Neiva? Vamos embora daqui! Já não suporto mais isto. Mãe Neném lhe trouxe o recado do Chico Xavier? Ele fez críticas a seu respeito…
        Senti como se tivesse levado uma punhalada. Perguntei:
        – Você também acha que eu, realmente, preciso estudar?
        – Não, absolutamente. – respondeu Getúlio – Mas, você me ensinou que o Homem se evolui em qualquer lugar. Por que, então, ficar aqui nesta serra, com tanto desconforto?
        – Não sei o que me espera – respondi – porém continuarei aqui até terminar meu curso com Humahã.
        – Meu Deus! – exclamou ele – Acho que não estou preparado para tanto, principalmente para ser companheiro de uma clarividente. Às vezes, penso que a amo, mas, quando estou ao seu lado, sinto que você está distante. Como sofro com isso!...
        Estávamos nos entendendo quando Mãe Neném chegou e começou a despejar tudo o que lhe vinha na cabeça. Disse que Chico Xavier tinha razão, que minha ignorância estava me atrasando, que ninguém conseguiria decifrar minhas visões, que Urubatã – Cavaleiro de Oxosse, líder da linha do amor e do perdão – era um exu, enfim, que tudo estava errado. Sizenando recebera uma comunicação de que Urubatã havia queimado todo meu dinheiro.
        Sim, nisso ela tinha uma certa razão pois, simbolicamente, ele havia incendiado o barraco de Mãe Neném na Cidade Livre.
        – Meu Deus! O que tenho a ver com tudo isso? – pensei, com a mente mergulhada num turbilhão de pensamento.
        Lembrei-me de Humahã e de sua filosofia:
        – O corpo físico é, para a alma encarnada, aquilo que a máquina significa para o operário.
        A doença persistia no meu corpo, e eu já não me sentia a mesma. Pensava no que ouvira: Caminharás muitas vezes no mundo como um barco que navega no oceano revolto… Ouvi Humahã que me dizia:
        – Não culpe os médicos, não acuse os professores, não reprove a conduta dos outros… Não maldiga a poeira da terra… Aproveite, sempre, o seu tempo em aprender, porque é muito mais tarde do que pensa. Você deve sentir a mais perfeita tolerância por todos e um interesse, com sinceridade, pelas crenças dos que pertencem a outras religiões. Não se importe pelo que demonstrarem pela sua e, para que possa ajudá-los, é preciso se libertar dos falsos preconceitos. Você não deve desprezar Mãe Neném. Deve, sim, ser condescendente em tudo, ser benevolente em tudo, agora, que os seus olhos estão abertos, para que possa empreender um trabalho de ordem superior. Pobre Mãe Neném!… A superstição é outro grande mal, que tem ocasionado muitas e terríveis crueldades neste mundo. Sofrem os homens, as plantas e os animais. Os fanáticos se dizem religiosos e praticam todo o mal em nome de suas religiões… Filha! Se anseia se unificar com Seta Branca, que nunca seja por amor a si mesma e, sim, para que você seja um canal, através do qual o seu amor chegue aos seus semelhantes. Geralmente, só temos consciência do corpo, que vai morrer, e não temos conhecimento do nosso estado de consciência interior, que é imortal. Faça a sua parte, filha, e lembra que, sempre, será capaz de fazer a sua parte. Não se esqueça de que a mente tem seus truques e de que a consciência é algo inegável. A única esperança, para um homem perdido no meio do oceano, é a de que alguém venha tirá-lo dali. Se alguém vem e o levanta, ele se sentirá aliviado e salvo. Outra coisa, filha, não abandone o seu companheiro...
        Enquanto ouvia tudo isso, Getúlio me olhava com ternura.
        – Cruz credo! Vou embora dessa miséria… – praguejou Mãe Neném.
        Continuei calada, ouvindo em dois planos. Getúlio e eu nos abraçamos, e eu pensava:
        – Ó, meu Deus! A alma espiritual é, realmente, uma partícula tão diminuta que se encontra dentro do corpo, que não a podemos ver...
        Despertei dos meus pensamentos pelas súplicas de Getúlio:
        – Vamos embora daqui, Neiva!…
        Procurei acalmá-lo com algumas palavras de doutrina, e tudo ficou bem.

        Eu estava sentada sob o pequizeiro, esperando o meu jantar, quando Gertrudes veio me dizer que Mãe Neném deixara um recado, para que eu fosse até o rancho da neta de Antônio da Silva, o fazendeiro de nossas terras que vivia bem no pé da serra, pois ela estava prestes a dar à luz e se encontrava à míngua. Dissera que eu não deixasse de ir.
        Eu me assustei, e disse que não iria por dinheiro algum. Nisso, minha cabeça rodou e comecei a andar. Sem consciência, de quando em vez sentia que estava descendo a serra, rumo ao rancho da parturiente.
        Quando voltei a mim, já estava de volta, subindo a serra em companhia de Mãe Neném, que me disse:
        – Puxa vida, Neiva! Vovô Indu fez o parto com perfeição e eu cortei o umbigo do menininho. Ó, bendita Natureza! Como pode acontecer um fenômeno como este? Enquanto você estava incorporada, seus olhos estavam fechados e, às vezes, abertos. Foi lindo…
        – Eu? – perguntei me refazendo.
        – Sim, Neiva, você mesma!
        Fiquei revoltada, mas nada disse. O fenômeno foi muito comentado, pois, na realidade, Vovô Indu incorporara em mim e fizera o parto, que depois fiquei sabendo, fora em condições anormais. Sempre havia fenômenos, e parece que os Menores escolhiam os melhores para firmar a Doutrina.

        Certo dia, reclamava da vida, quando Humahã me disse:
        – Neiva, ninguém quer morrer! Todos só querem viver, até quando possam arrastar suas vidas. Essa tendência é visível, não só no plano individual como, também, no coletivo. A integridade da vida humana só pode ser realizada quando uma pessoa se preocupa no serviço do todo, completo. Existe um Céu espiritual, existe uma outra natureza que está além da manifestação e da não manifestação. Vamos, Neiva! Hoje, preciso levá-la à prova. Salve Deus!
        Naquela madrugada fui até Ponta Negra, à minha triste pracinha, onde sempre me encontrava com Amanto. Como longas fitas de muitas cores, recamadas de fios dourados, refletindo mil luzes, pouco a pouco um sopro separava os dois planos que eu, simultaneamente, visualizada. Quanta beleza triste eu sentia!...
        Eram histórias de vidas humanas etéricas, que se alastravam por todo aquele Vale, dentro de todos os gêneros.
        – Ali, sim, Neiva, – ouvi alguém dizer – ali, onde descem as trevas da noite – e sorrindo, com ternura no olhar, ele me ofereceu uma dádiva secreta que, no fundo do meu coração, até hoje esta dádiva brilha – e assim tudo morrerá e tudo viverá, porque Deus é a Natureza… Fechou-se o santuário íntimo da Alta Magia, dádiva esta que somente o alto limite lhe fará compreender...
        Comecei a viver um terrível contraste. Contava os fenômenos de minhas viagens às pessoas, e elas me diziam:
        – Você que é feliz, Neiva!
        Não era verdade. Eu não era feliz, pois sofria muito...

        Minha enfermidade piorava dia a dia. Também aumentavam os enfermos, os desesperados e as despesas, que eram só minhas.
        Resolvi fazer uma fábrica de farinha e outra de telhas. Da de telhas, Raul, meu filho, tomava conta e produzia, tranquilamente, telhas coloniais. Da de farinha, eu e meus outros filhos cuidávamos. Gilberto, com um caminhão, puxava a matéria-prima: a mandioca, para a farinha, e o barro para as telhas. Nas horas vagas, fazia fretes. Gertrudes tinha uma pequena pensão. Carmem Lúcia e Vera Lúcia cozinhavam e lavavam para as crianças do orfanato já existente. Ninguém reclamava. Pelo contrário, me davam forças para que eu continuasse. E as palavras de Humahã não saiam de minha mente:
        – A sabedoria para ajudar e o amor que inspira a vontade de servir, essas são as suas qualidades, Neiva! Certamente, ninguém deve acalentar o desequilíbrio. Raciocínio sem aspereza; sentimentos sem preguiça; caridade sem pretensão; conhecimento sem vaidade; cooperação sem exigência; devotamento sem apelo; dignidade sem orgulho; e, por fim, Neiva, o mais importante destas palavras do seu comportamento: respeito sem bajulice!… Sim! Porque a fé sem conhecimento do Bem não evolui a sua mente, Neiva! De bom grado, combina com o canto imortal.
        – Meu Deus! – exclamei – Como poderei viver se as forças me falharem? Parece que todos estão contra mim!...
        Fui procurar meus filhos e lhes disse com ternura:
        – Meus filhos, vamos embora daqui! Já não suporto mais...
        – Não, mamãe, não podemos sair daqui. Pai Seta Branca irá perder a aposta que fez com Mãe Yemanjá!
        Realmente, Pai Seta Branca nos dissera que havia feito uma aposta com Mãe Yemanjá: daria a ela um valioso anel se eu não levasse aquela obra até o fim. Nosso amor por ele sempre foi muito grande e, num gemido, fiz esta prece:
Senhor, deste-me a palavra por semente de Luz...
Auxilia-me a falar , para que se faça o melhor,
Não me permita envolvê-las nas sombras que projeto…
Ajude-me a lembrar o que deve ser dito...
E não me deixe emudecer diante da verdade!
Onde a irritação me perturba, induza-me ao silêncio!
Porque ainda dou acesso às chamas da ira.
Ajude-me, também, Senhor,
Para que a minha palavra obedeça à Tua vontade de hoje e sempre!
Salve Deus!
        Chegou Humahã e me falou:
        – Neiva, ouviu os seus filhos? Deram-lhe uma bela lição. Não há consciência sem compromisso, bem como não existe dignidade sem lei. Vejo que você traz, em seu coração, o raciocínio sincero, sem aspereza, sem preguiça e sem exigência...
        – Mãe Neném está me exigindo muito!… – respondi meio confusa.
        – Neiva, não contratou nenhum engenheiro para garantir o Sol que a sustenta, e nem assalaria empregados para a escavação na atmosfera, a fim de que renovem o ar que você respira. Seja como for, convença-se de que Deus está conosco em todos os caminhos. Confia, siga, trabalha e continua…
        – Chega, meu Mestre! Minha cabeça é tão pequena!…
        – Isto é o que você pensa! Zele por sua lâmpada, para que as perturbações do caminho não a façam mergulhar nas trevas. O trabalho é a chama que define a vida. A fé é o óleo que a sustenta na estrada, para que todos possam se acolher na Luz que lhe cerca. Finalmente, o que é a Vida senão a ação permanente da força sobre a matéria? Sim, em força a matéria se resume, se sintetiza e se define. Seja toda a verdade na vida, com sua fé viva, sua lâmpada resplandecendo…
        Os casos de dúvidas e dos conflitos dos seres encarnados eram armas sempre apontadas para mim. Respondi:
        – Ó, meu Deus! Como poderei seguir? Como será a minha grande luta se os conhecimentos que recebo, relacionados com a vida, me induzem a reduzir erros que ainda não consigo evitar? Como as pessoas vão aceitar tudo isso? A força mantém este Universo regido por leis comuns, naturais, numa sequência tão lógica! Por que complicar no processo evolutivo? Ó, meu Deus! Como irei explicar ao Doutrinador esta continuação?
        Eu era toda essa filosofia de inseguranças. Para que ver tantas coisas? Quem iria me acreditar?
        – Pela luz da Razão, Neiva! Ninguém se nega ao Espírito da Verdade. Ele fala uma língua correta, materializada. Existe um Sol Interior, cujo brilho se reflete no nosso rosto. É muito equilibrado e ilumina, também, os nossos rastros.
        – As pessoas que vêm nos acompanhando conseguem ver claro o nosso caminho? Então, essas pessoas ficaram presas em mim?
        – Não, Neiva, ninguém consegue alcançá-la. Apenas seguem seus passos.
        – Meu Deus! Preferia os meus caminhões…
        – Neiva! Fixe-se na Doutrina e em suas revelações alteradas. A força agindo em obediência às leis evolutivas. Ela se utiliza da matéria no estado primário desta e, com ela, forma corpos e realiza fenômenos incontáveis e indescritíveis, que escapam à apreciação comum, considerando-se os limitados recursos deste planeta. Neiva, amanhã será outro dia. Cuida do que puder, sem se preocupar com o futuro dos outros. Não existe um futuro definido, porque tudo depende de nós mesmos. Vamos, filha! Ânimo! O dia de hoje já nos trouxe muitas preocupações… Por que nos preocuparmos com o dia de amanhã?
        Realmente, senti que tudo estava diferente. Passei por diversas provas, mas me sentia mais segura, conscientizada pelo velho e querido Mestre Humahã, o meu consolador…

        Certo dia, me desprendi dos meus afazeres e fui ao meu trono, como chamava o meu canto no pique da serra, e lá comecei a pensar nos reajustes a que estava sendo submetida.
        Sentei e fui saindo do corpo. Fiz um transporte até o Tibete, onde meu Mestre Humahã já me esperava, sentado entre dois candelabros fincados no chão. Não era muito do meu gosto ir àquela sala, naquele palácio em Lhasa. Preferia que Humahã se desdobrasse e viesse até mim. Ele disse:
        – Salve Deus, Neiva! Venha, filha, sei o quanto está sofrendo, porém, creia que, em Deus, ainda será muito feliz!
        – Estou infeliz. Só querem que eu adivinhe! Jogam agulhas no chão, no escuro, para que eu as ache e as apanhe. Isso me entristece. É sinal que não acreditam em mim...
        – Neiva! Você precisa distinguir entre o verdadeiro e o falso. Deve aprender a ser verdadeira em tudo: palavras e ações. Por mais sábia que você seja, sempre terá muito a aprender. Amor e sabedoria! Tudo irá se manifestar em você, entre o Bem e o Mal. Saiba que o ocultismo não admite transigência. Custe o que custar, é preciso fazer o Bem e evitar o Mal! Seu corpo astral mental se aprazerá em se imaginar, orgulhosamente, separado do físico.
        Eu ouvia tudo com ar distante, como se estivesse longe dali. Ele me observou, dizendo:
        – Você gosta muito de pensar em si mesma, Neiva. Seta Branca está incessantemente vigilante, sob pena de você vir a falir. Mesmo quando estiver desviada das coisas mundanas, você terá que meditar, fazendo conjecturas a cerca de si mesma. Jesus nos adverte: Antes de culpar o seu vizinho, por que não ser severo consigo mesmo? A sua vidência é algo sem limite, é algo sublime. Você tem tudo para fazer o Bem e o Mal. Se fizer o Mal estará se destruindo; se fizer o Bem, crescerá como a rama selvagem. Não se esqueça, também, que, acima de tudo, está aqui para aprender a guardar segredos, mesmo fazendo mistério das suas revelações. Esforce-se para averiguar o que vale a pena ser dito, e lembre-se de que não deve julgar uma coisa pelo seu tamanho, pois uma coisa pequena, muitas vezes, tem muito maior sentido. Não deve acolher um pensamento somente porque já existe, há séculos, nas escrituras. Você deve fazer distinção entre o que é útil e o que é inútil. Alimentar os pobres é boa ação, mas alimentar as almas é mais nobre e mais útil do que alimentar os corpos. Quem é rico, pode alimentar os corpos, mas somente os que sorvem o conhecimento espiritual de Deus podem alimentar suas almas. Quem tem conhecimento tem, também, o dever de ensinar aos outros. A sua responsabilidade, Neiva, será a maior do mundo uma vez que nunca poderá dizer tudo e, por outro lado, não poderá se calar.
        Humahã fez uma pausa, recomeçando a contar este exemplo:
        – Eu era muito jovem quando me enclausurei neste mosteiro. Porém, antes de entrar aqui, tive grandes experiências. E o que vi? Houve um tempo em que a Índia era o principal ponto para as revelações. Para aqui vinham, de muito longe, curiosos, romeiros, magos, videntes… Viviam por aí, à espreita das oportunidades de suas alucinações. Uma delas envolveu famoso lorde, que veio da Inglaterra para saber o destino do filho recém-nascido. Foi atendido por um desses supostos mestres que, apressado, já estava de saída. Seus companheiros já estavam esperando por ele, na célebre porteira, para cada um tomar seu rumo. Por insistência do nobre, o mestre contou, sem amor, o que via: seu filho teria um mal destino, e lhe revelou o roteiro de sua vida. Em tal tempo acontecerá isso, em tal tempo será assim… O nobre saiu dali como louco. Seu filho, que até então era sua alegria, passou a ser encarado como sua própria sentença. A partir de então nada fez a não ser sofrer, à espera dos acontecimentos previstos para sua vida. Entretanto, nada aconteceu. O jovem cresceu normalmente, casou-se e nada sofreu de mal, enquanto seu pai ficara amargurado por toda a vida. Não preciso dizer, mas as vibrações do lorde destruíram o impensado mestre. Ninguém teve a intenção de magoar ninguém. O efeito das palavras impensadas de um mestre ou de uma clarividente é algo muito sério! Veja, sempre, à sua frente o lorde, o homem que sofreu a consequência do seu orgulho, mas nunca faça como o irresponsável mestre. Nunca participe com ninguém. Você será, antes de tudo, uma psicanalista. É bem melhor que as pessoas saiam de perto de você desacreditando-lhe do que se desacreditando de si mesmas. Volte para o seu corpo, filha, e vá enfrentar as feras, como diz. Saiba, porém, que todas são melhores do que você. Elas não têm um ideal como você o tem, e sofrem com o seu incontrolável temperamento.
        – Todos me julgam uma qualquer somente porque sou motorista!
        – Para você, tudo é bom no caminho da evolução…
        Ele se calou e logo eu estava de volta ao meu corpo, e me senti em casa, trazendo na memória uma das frases que Humahã me dissera e que muito me impressionou:
        – Os corpos se deslocam para realizarem as curas. O serviço é a chama que lhe define a vida e clareia a estrada para os que se acolhem nas sombras, porque entre eles você encontrará os que julgam. Sim, os infelizes que, na Terra, cativos da ignorância e do ódio, só souberam julgar os seus irmãos…

        Ó, meu Deus! Era impossível uma mudança tão atroz… Não obstantes meus protestos e minha incompreensão inicial, sentia que eu estava evoluindo dia a dia.
        Recebia uma lição em cada canto, ia aprendendo a iluminar as sombras e sempre explicava que, quem ama na Lei do Auxílio, fica imune a qualquer tragédia de dor. Não tinha grandes conhecimentos da Lei do Carma. Passei, então, minha primeira decepção!
        Certo dia, eu estava muito atarefada, quando chegou uma bonita e jovem senhora e me pediu que, pelo amor de Deus, internasse seus quatro filhos e mais dois sobrinhos. Seriam mais seis crianças! Ver uma mãe oferecer seus filhos, na minha inexperiência, era algo muito sério. Apesar da intransigência de Mãe Neném, fiquei com as crianças e a mulher se foi.
        Acostumada a fazer meus cálculos, rapidamente pensei:
        – Tudo vai dar certo. Vou organizar melhor minha fábrica de farinha e tudo seguirá, realmente, um curso normal…
        No dia seguinte, amanheci me lembrando de uma rica passagem no plano espiritual. Via a linda Izadora se matando com o veneno guardado num grande anel, que já fora usado para envenenar muitos. Sabia que ela estava reencarnada em uma daquelas mocinhas que me enchiam de cuidados, cujo nome era Nair. E aconteceu o inevitável: Izadora/Nair ficou tomando conta da casa de farinha. Ocupada como eu estava, procurava não tirar os olhos dela. Mas, num rápido momento, ela enfiou a mão por baixo da engrenagem, para puxar a massa da mandioca, e teve moídos os seus dedos.
        Foi horrível, e me desesperei. De repente, chegou um carro, com um senhor que, há muito, não aparecia na UESB, e que havia sido, no passado, uma vítima de Izadora. Tudo foi muito rápido e, num instante, já haviam partido, conduzindo Nair para Anápolis, cidade vizinha com maiores recursos.
        Fiquei só, sentindo a sensação que as circunstâncias da vida nos proporcionam, e
        – Pessoas que eu não conheço… Pessoas tão insignificantes para mim…
        Tive uma sensação de morte, e tentei sair em busca de meus mestre Humahã, com o coração partido, lembrando-se das pragas de Mãe Neném, furiosa a me dizer:
        – Cruz credo! Por que manter estas crianças nesta serra, em situação tão precária?
        Sim, ela tinha razão. Porém, quem nos entregara aquelas crianças com tanta amargura no coração?
        Saindo do corpo, cheguei ao palácio grená, onde o meu querido Mestre já me esperava. Ao vê-lo, senti meu coração palpitar de emoção. Desta vez era diferente e, após saudá-lo, falei:
        – Meu querido velhinho! Meu amor! Agora estou só, estou sozinha! Fui inventar uma fábrica de farinha de mandioca e aleijei uma menina...
        Não blasfeme! Não permito que fale assim. Apenas, na verdade, você deu oportunidade a Izadora para que se reajustasse com quem ela fez tanto mal. Olha, Neiva, assim como existe um único Deus, existe uma só verdade. Como se poderá conhecer a verdade senão na fonte original da vida? A verdade só se manifesta nos princípios espontâneos e aperfeiçoados. Quando você souber ouvir claramente a voz da verdade, despertará as suas faculdades espirituais e irá ouvir, também, os eternos seres a lhe abençoar. Dia virá em que um Sol e pequenos sóis abrirão a sua alma e, então, você irá afastar muitas coisas do seu caminho, encontrando a harmonia do Círculo Esotérico da Justiça e da Verdade. Realize conscientemente a sua individualidade, desenvolvida na consciência humana. Terá de Deus a graça e fará o Elixir da Vida, tudo resultante da sua consciência. É pela caridade que os santos consolam os criminosos que infringem a Lei de Deus, ou melhor, aqueles que violam as Leis de Deus por cultivarem a ignorância. Na Terra, o Homem se deslumbra com as facilidades que esta rica paisagem lhe oferece. Filha, existe um átomo ou partícula antimaterial, que se compõe das qualidades da antimatéria. O neutrom, átomo que separa o etérico do físico, quando isolado um do outro, ficando a matéria só, se decompõe. Filha, há um outro mundo, além desta matéria, do qual você só conhece uma pequena parte, porém igual, igualzinho a este, e está em nossas cabeças, com leis, ternura e paz. Não existe separação! Apenas se separam, isto é, quando tem separação, esta é feita pela compreensão dos seus habitantes. Como eu já disse, há outra vida acima de nossas cabeças...
        – Então os aviões arrebentam tudo quando passam? – perguntei espantada.
        – Neiva, veja bem, minha filha, o que eu disse: a velocidade nos permite ir além deste mundo material, que determina a antimatéria. Ao chocarem-se, um aniquila o outro. Essa partícula antimaterial se encontra no plexo e cresce, se transforma para se chocar sempre e se aniquilar diante do físico – o corpo material, destrutível, temporário, porque as partículas de sua energia vital o fazem mais denso, porém sempre alimentado pelo antimaterial, que é mais sutil...
        – E os nossos cientistas? –
        – Eles se tornarão autênticos quando souberem identificar as partículas antimatéria com suas qualidades. A Química, som o seu calor, separa…
        – Ó, meu Deus! – interrompi – Não foi isto que vim buscar, meu Mestre!
        Mãe Neném lhe fala sempre em materialização, sem conhecer o fenômeno que materializa a antimatéria e você, uma clarividente, não poderá cair no mesmo erro. Salve Deus, Neiva! Enquanto estamos aqui concentrados, eu e você, que separou o seu plexo para operar o fenômeno de estar aqui e, simultaneamente, em sua casa na UESB, nos facilita agir junto à sua menina, Izadora, que terá o mínimo de sua provação.
        – É tudo tão complexo! – gemi – Minha vida, que era tão simples e tão clara, agora me transbordava de dúvidas e conflitos…
        Quando voltei ao corpo estava melhor. Izadora/Nair só perdera um dedo, o anular, onde usava o anel, depósito do veneno, como nos conta a história dos Borjas. Foi triste, porém passou…

        Passava aqueles dias num misto de sonhos, de realidades, de dúvidas e de conflitos. Debatia-me, naquela serra, com desespero e desatinos. Perdi a noção do tempo, e passei a mentir as datas dos acontecimentos, dando motivos para que as pessoas duvidassem de mim.
        Tudo, tudo parecia se comprimir em minha cabeça. Tudo me parecia fantástico, como se eu estivesse louca. Comecei a guardar segredo de tudo que via e ouvia. Sentia que estava sendo preparada para alguma coisa boa, mas sempre vinha um pensamento, que me dava forças: qualquer dia iria embora dali…Sentei-me debaixo do pequizeiro, perto da minha casa, num banquinho feito pelos meninos. Neste dia eu estava terrivelmente desajustada. Fechei os olhos, e Pai João de Enoque chegou de mansinho:
        – Fia, os Espíritos do Astral Inferior gostam de se aproveitar dos grandes médiuns quando estes estão descontrolados pelo efeito de irritações e outras perturbações. Você tem que ser diferente,
        – Salve Deus! Por que eu seria diferente? Só Mãe Neném é tão sabida? Como pode minha cabeça guardar tanta coisa? – explodi.
        Enquanto isso, os comentários continuavam. Foi quando começaram a se manifestar os fenômenos dos carmas.
        Era uma tarde fria. Eu não me sentia bem, e me recolhi mais cedo. Já estava deitada, envolvida em meus pensamentos, quando ouvi terríveis gritos de um obsedado. Era uma moça, e fomos todos para o Templo. Mãe Neném fez a abertura do trabalho e leu uma passagem do Evangelho. Começaram as puxadas. Eu ia no mesmo embalo, quando ouvi a voz de Amanto:
        – Filha, quando chegar um caso destes, eleve seu pensamento a Deus, e faça uma pequena concentração, até que os demais incorporem.
        Estava tudo tão difícil que comecei a ficar com medo. Em meio àquela confusão, me desprendi do corpo e fui até Humahã, encontrando-o lavando o rosto em uma bonita bacia. Lembrei-me de que os horários deveriam ser diferentes, e falei constrangida:
        – Oh! Perdoa-me!
        – Ora, filha, – disse ele – não existe horário para nós. Somente hoje você me pegou desprevenido. Muitas vezes eu não estava sentado naquele tapete, como você me via, pois meu corpo físico, o meu pobre corpo, estava dormindo lá em cima, no dormitório, junto a mais dois outros lamas que também dormiam.
        – Ó, meu Deus! Como é complexa a minha vida!…
        – Sim, filha, quanto mais penetramos nos domínios psíquicos, mais difícil se torna nossa jornada. Achamo-nos na situação de viajantes que atravessam uma região que antes nunca foi percorrida por alguém. Temos que caminhar tendo como guia somente a nossa própria mente, confiando, apenas, na nossa orientação e na nossa defesa. Neiva, minha Neiva! Você se encontra diante de uma floresta virgem, cujas árvores são numerosas. Vai em busca da sua visão e, então, encontra o campo da sua visão, tal é a sua consciência diante do problema da constituição. Fale sempre, Neiva, na maior concentração de sua alma, demonstre rigorosamente a sua força, e faça por onde chegar onde Seta Branca deseja que chegue. Filha, a força vital é produzida pela força bioquímica. Quando a motricidade do sistema nervoso desagrega e inflama seu plexo, instintivamente ele emite sua força vital. Agora, vai, filha! Lá na UESB já estão preocupados com você…
        Regressei ao corpo e, ainda meio tonta, tive outro susto, pois estava em casa e não no Templo. Perguntei a Getúlio:
        – Como vim do Templo? Carregada?
        – Que carregada, Neiva! Veio caminhando. – respondeu ele – Apenas estava calada. Até pensamos que você tinha dormido um pouco durante a leitura do Evangelho.
        Não me lembro de nada, não vi nada! Acho que estou ficando louca. A qualquer hora vão me levar para um manicômio! Salve Deus!

        Mil coisas aconteceram… Meus filhos cresciam e eu não via maneira de sair dali.
        Havia me levantado cedo, e fui me sentar sob o pequizeiro, quando chegou um carro cheio de gente, cujo aspecto era o pior possível. Fui, com Mãe Neném, recebê-los. Comentei com ela:
        – Eles me parecem estar com fome. Devem estar vindo de longe. Vamos fazer alguma coisa para eles comerem…
        – Não, Neiva! Lembre-se do que diz Humahã… Deve alimentar somente a alma! Temos muito pouco. Não há o que repartir…
        Concordei com ela, e começamos a rir.
        Depois desse dia, senti que Mãe Neném havia melhorado comigo, numa compreensão mais razoável, amenizando nossas dores. Ficamos, assim, mais unidas.
        Mesmo depois do acidente com Nair, continuamos a fabricar farinha de mandioca. Havia comprado mandioca, com a maior dificuldade, e mandei Gilberto, meu filho, então com apenas 16 anos, dono de um caminhão, buscar aquela matéria prima. Gilberto saíra de madrugada e, até às 10 horas da manhã, não havia retornado. Comecei a ficar aflita, e, apreensiva, fui para a estrada, para esperá-lo. Ó, meu Deus! Parece que tudo estava preparado para eu ser testada! Em vez de Gilberto, quem chegou foi Samuel, um velho colega de profissão, com quem tinha uma grande afinidade.
        A princípio, pensei em correr e me esconder. Mas, ao mesmo tempo, me preocupei com a reação do meu povo. Éramos noventa adultos, todos bem conscientes, e viviam à minha espreita. Não tinha como me esconder…
        Ouvi a voz de Mãe Neném, que gritava:
        – Neiva! Neiva! Cruz credo, Neiva! Cuidado com esses motoristas!
        Desta vez eu não era mais aquela! Levantei meus olhos e disse com amor:
        – Não se preocupe, minha querida Mãe Neném!…
        Samuel estava estarrecido. A princípio, disse o que pensava de toda aquela pobreza e, virando-se para mim, enfrentou a minha segurança. Súbito, tudo mudou, e ele me disse:
        – Puxa, colega velha! Que mudança!… Quem te viu, e quem te vê! Eu até estou gostando disso, sabes? Pelo que o Alcides me contou, achei que tu estavas quebrada…
        – E quebrei mesmo! – falei com segurança, e tudo se modificou.
        – Neiva, – voltou a falar Samuel – isso foi o que tu escolhestes, e deves estar realizada. Só que não entendemos o porquê, nós que somos realmente teus amigos e, mais que amigos, teus irmãos da estrada. O Alcides não se conforma, porque tu sempre nos ajudastes…
        Samuel me abraçou com carinho, e disse:
        – Estou feliz em te encontrar assim, segura do que quer. Tu sempre fostes tu mesma, e posso te entender. Eu e minha mulher, a Lourdes, já frequentamos alguns terreiros e gostamos muito.
        – Eu não sabia que Lourdes era espírita – eu disse.
        – Sim, e como! – falou Samuel – Vou trazê-la aqui, se Deus quiser!…
        – A esposa dele, Mãe Neném, viajava muito conosco. – expliquei.
        – Sim! – tornou Samuel – Graças a Deus, eu vivo rodando pelo mundo, a fim de dar conforto para a minha família. Neiva sabe como somos felizes. Vamos até Alexânia, Neiva? Vamos, Mãe Neném?
        – Vamos! – ela disse.
        Fomos. Eu, toda feliz, pensava que quando somos verdadeiros, tudo é felicidade em nós.
        Depois do passeio, voltamos e, já de partida, Samuel me falou:
        – Neiva, quando tu quiseres… Bem, sabes que posso comprar um carro para tu trabalhares, quando quiseres. Estou às tuas ordens e saibas que todos os colegas gostariam de tê-la de volta…
        – Não voltarei! – respondi, decidida – Pode ser que seja a pior decisão da minha vida, mas pedi para não sair daqui.
        – Sei! O seu falado casamento…
        – Ela já se casou – adiantou Mãe Neném.
        – Já? Como ele se sujeita a esse tipo de vida? Duvido… Soube que o cara é muito rico!
        – De quem está falando? – perguntei, e ele notou que eu não gostara.
        – Coitada da velha colega! Com apenas trinta e três anos…
        – Trinta e cinco – corrigi eu.
        – Sim, isto é sinal de que este negócio é verdadeiro!…
        – Tem razão, Samuel. E quero lembrá-lo de que você está com um dinheiro separado para me entregar. Já ia embora, esquecendo disso.
        Samuel se admirou, porque havia, realmente, separado em seu bolso um dinheiro que me devia. Essa dívida já tinha dois anos, e ele tinha certeza de que eu não sabia e nem lhe cobraria se não tivesse visto o dinheiro em seu bolso e não soubesse sua intenção de resgatar a dívida. Samuel me conhecia tão bem que sabia que eu jamais lhe cobraria a dívida.
        Ele me entregou o dinheiro e partiu. Mais um que estava convencido da minha clarividência…
        Na realidade, cada colega profissional que se despedia, ia deixando comigo sua bagagem de solidão e insegurança. Para mim era muito triste viver longe dos meus colegas motoristas, daqueles que, realmente, haviam acreditado em mim como profissional e como mulher. Pensava:
        – Ó, meu Deus! Como me sinto insegura. Qual será o meu fim ao lado destas imagens irreais? Salve Deus!

        No dia 30 de outubro eu amanheci com forte dor no peito. Ao sair, ouvi vozes e palmas. Todos tinham ido me saudar pelo meu aniversário. Entrei na brincadeira, e tudo que estava sentindo passou.
        Fomos comunicados que, no meu escritório, estava um grupo de jovens Kardecistas, que queriam me ouvir e saber algo sobre a minha clarividência.
        Pedi que fossem levados ao Templo, enquanto me preparava.
        Ao chegar ao Templo, encontrei-os e me receberam muito bem, dizendo:
        – Vamos fazer uma prece! A clarividente vai fazer a prece…
        Foi quando Mãe Neném, para minha decepção, me disse baixinho:
        – Cruz credo, Neiva! Pelo amor de Deus! Você é semianalfabeta, e esse povo é cultíssimo… – e assumiu.
Retirei-me calada, e fui esperar por minha hora, isto é, o momento em que precisassem de mim. Esperei um pouco revoltada, sem que ninguém percebesse o que ia dentro de mim, até que vieram ficar ao meu redor.
        Comecei a falar, e eles acharam que tudo foi magnífico. Saíram deslumbrados com tudo o que vieram saber. Por fim, queriam me convencer a desistir de ser umbandista!… Logo que saíram, fui falar com Humahã:
        – Oh, Mestre, estou desolada. Não suportarei por muito tempo mais essa situação. Por que é só paulada na minha cabeça?
        – Porque sua cabecinha está se enchendo de coisas e, quando estiver bem cheia, na primeira paulada, como disse, sai tudo de uma só vez! O que importa é que você é muito honesta, e só sabe dizer a verdade, sem saber de outras coisas. E quer saber mais? Tem que aprender o que dizer e como dizer… Sua situação é muito perigosa, pois suas palavras tanto podem ser o bálsamo curador como queimar como fogo. Neném tem razão, filha!
        – Ó, meu Deus! – gemi, e voltei para o meu corpo.

        Certo dia, soube que um senhor havia chegado. Fiquei intrigada. Quem seria? Já sabia que um dia iria chegar um homem, de origem estrangeira, e que, segundo informações recebidas anteriormente, seria o meu companheiro e, por seu nível cultural, atenderia à parte intelectual da Doutrina. Fiz uma vidência, e fiquei bem impressionada com ele.
        Mas, foi tudo bem diferente! Depois de nos apresentarmos, tornamo-nos bons amigos. Ele começou a me incentivar com as minhas viagens. As comunicações passaram a ser mais objetivas, porque tão logo eu voltava, ele me dava explicações de tudo. Tinha um carinho fraternal comigo, coisa que, até então, eu nunca tivera. No dia em que fui encontrar Humahã, confiei-lhe meus pensamentos. O Mestre me falou:
        – Neiva, dentro dos seus grandes conceitos vejo a profundidade dos seus sentimentos. Quantos anos você tem agora?
        – Trinta e quatro anos e seis meses…
        – Neiva, as obras inspiradas pelo amor aos nossos semelhantes são as que mais pesarão na balança de nossos corações. Suas palavras serão sempre ouvidas, porque você fala da abnegação e do sacrifício. Nada em você irá perecer, porque falará, sempre, do que existe. Tudo está consigo em Deus e na comunicação dos espíritos. Sim, filha, todos somos livres. Ninguém é de ninguém, até mesmo para desejar, escolher, fazer ou obter. Mas todos somos, também, constrangidos a entrar nos resultados de nossas próprias obras. Foi por isso que Jesus, compreendendo que não existe direito sem obrigação, e nem equilíbrio sem consciência, nos afirmou, claramente: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos fará livres!” O corpo é um estado celular, na qual cada uma das células é um cidadão. Então, existem encontros, como existem doenças, como o sexo é apenas o conflito dos cidadãos no estado, provocado pela ação de forças externas, que não atinge o centro coronário. O Homem é livre até mesmo para recusar ou dominar os seus instintos.
        – Falas em sexo, Humahã! Estou longe de levar uma vida normal…
        – Sim, filha, o sexo não é como o álcool, que deteriora os poderes do nosso Sol Interior. Porém, conforme a sua conduta, deforma e desmoraliza o destino do missionário. O escândalo distancia o missionário de sua missão. O Homem, em sua mente deformada, deturpa os fatos e as coisas.
– Todos os homens?
        – Não, filha, nem todos. Porém, sim, uma grande parte! Falei no sexo associado à criação. Dias virão em que os pais não mais criarão seus filhos. Os psicólogos e psiquiatras é que irão criá-los… Salve Deus! – Humahã fez uma pausa, e continuou – Pelas facilidades constantes do Homem no conceito do sexo, eles perdem as suas famílias e não chegam ao término dos seus destinos cármicos…
        – Ó, meu Deus! – exclamei – É tudo tão complexo! A vida também é muito complexa… Como chegarei ao meu destino? Estou tão cansada e nem tenho onde escorar a minha cabeça!
        – Filha, as projeções mentais, como o próprio nome indica, dependem exclusivamente do poder e da vontade emissora, de sua capacidade mais ou menos poderosas, no impulso de suas ondas telepáticas. Essas projeções podem ser mentais ou fluídicas. Esse recém chegado é um metabólico!
        Dizendo isso, Humahã se fechou em seu canto, e eu o deixei em paz. Pouco depois, olhou em minha direção, exclamando:
        – Ó, meu Deus! Quando essa andorinha descansará sua cabeça e quão alto serão os seus degraus? Vai, filha! Deve sentir a mais perfeita tolerância por todos e um sincero interesse pelas criaturas e pelas crenças daqueles que pertencem a outras religiões, mesmo que não demonstrem o mesmo pela sua. A religião dos outros é, como a sua, um caminho para o mais elevado, que deve ser trilhado com o nosso amor. Agora, você já tem seus olhos abertos, mas deve lembrar de algumas de suas antigas crenças, de suas velhas cerimônias, que lhe parecerão absurdas. Porém, mantenha-se firme, porque jamais fará as coisas de si mesma.
        – Eu perdi a minha personalidade!… – gemi.
        – Seja condescendente em tudo e seja benévola em todas as coisas. Agora, vá, filha! Seus olhos estão abertos e Deus tem seus planos, e um deles é você!
        Quando despertei, já no meu corpo, pensei que o velho mestre estava caducando, porque eu fora buscar uma coisa e ele me havia dado outra!
        Lá fora, todos falavam com o novo visitante. Sem entusiasmo, meio decepcionada, entrei na roda, falando, rindo, mas com o pensamento seguro, no outro lado do mundo.
        O tempo passou e ficamos amigos, aliás, mais do que amigos – irmãos! Entre eu e o visitante, na dúvida de ser ele o intelectual esperado por Pai Seta Branca, tudo corria bem. Comecei a me desenvolver melhor e sentia prazer em tê-lo ao meu lado, porque ele desvendava, com carinho, as minhas visões e eu, que me sentia tão doente, comecei a sentir melhora.
        Certo dia, Mãe Neném, toda arrumada para sair, me disse:
        – Neiva, Humahã já sabe que este homem está se apaixonando por você?
        – Cruz credo, Mãe Neném! Ele não quer nada comigo. Está é sempre com você, tratando da Doutrina. Teria, então, que ser comigo…
        O visitante se acercou de nós, e perguntou:
        – Para onde vai, Mãe Neném?
        – Vou para Brasília, cuidar da minha vida, porque não tenho ninguém para cuidar de mim!… Meu filho, você não sabe como é triste uma mulher sozinha!
        – Sim, Mãe Neném, eu sei. Eu pretendo passar algum tempo aqui e poderei ajudá-la. Agora mesmo, tenho algumas coisas para resolver em Brasília e, assim, posso levá-la no meu carro. Vamos?
        Foram, e só voltaram dois dias depois. Eu já sabia de tudo o que ocorrera. Mas ele veio conversar comigo:
        – Neiva, por que você não foi mais franca comigo? Soube que você está sem medicamentos porque não pode comprar e, também, que o Pai Seta Branca está preparando você para acompanhar um intelectual que irá descrever, com certo critério, esta Doutrina. Sabe, Neiva, o Pai Seta Branca é muito sábio, mas você não quer sair daqui? Eu terei todo o respeito às coisas de nosso Pai!
        – Por que você está me falando estas coisas? – perguntei.
        – Porque Mãe Neném me pediu que eu saísse daqui, deixasse a serra…
        Nas entrelinhas enxerguei as mesquinharias… Mas ele continuou:
        – Neiva, me desculpe, mas quantos anos você tem?
        – Trinta e cinco anos. – respondi – E você?
        – Quarenta e um anos, e já estou aposentado. Sou engenheiro agrônomo e tive um princípio de angina. Fiquei inutilizado. Se a Medicina não progredir mais rápido, estou com meus dias contados…
        – Puxa vida! – exclamei – Depois do meu encontro com a espiritualidade só ouço coisas tristes!
        – Neiva, antes de conhecê-la, o que estou dizendo nada significaria, porém, hoje, me toca, porque vejo você sofrida e sentindo solidão. Fui desprezado pela minha esposa. Ela queria um filho, mas uma doença me impede de ter filhos… Agora, ela já está casada com outro, tem dois filhos, e é feliz. Foi muito brusca a atitude dela, e eu não esperava por isso. Caí, e ainda não me equilibrei. Nem sei quando me levantarei!
        – Parece que você cai facilmente… Pelo que vejo, essa saída com Mãe Neném lhe fez mal.
        – Mutilou-me! – resmungou ele.
        – Você não está preparado para tão grosseira missão!
        – Neiva, falar em grosseria a seu lado é uma aberração!…
        Sorrimos e nos preparamos para receber Mãe Neném e Getúlio, que se aproximavam.
        – Salve Deus! – saudou Getúlio, dirigindo-se ao visitante – Mãe Neném me disse que você vai embora…
        – Vou, sim, Getúlio, tão logo o Pai Seta Branca me libere. Vim, esperando poder ser útil, mas nada sei fazer a não ser ficar ao lado de Neiva, recebendo seus ensinamentos que, na verdade, são pérolas.
        Notei que Getúlio estava magoado com Mãe Neném. Ele insistiu:
        – Isso é verdade! Mas, fique conosco. Precisamos de uma pessoa como você. Não se sente aborrecido em ficar junto de Neiva?
        – Não! Eu e Neiva nos entendemos muito bem.
        – Estamos em uma jornada, Carlos. Neiva precisa de nós.
        – Do que precisamos agora é de quem faça dinheiro! – cortou Mãe Neném – Espírito não enche barriga de ninguém!
        Getúlio assumiu ar agressivo, e olhando Mãe Neném com raiva, disse:
        – Bem que se os filhos de Neiva concordassem eu a tirava daqui!…
        O ambiente ficou constrangedor. Fiquei na maior frustração da minha vida. Felizmente, fomos interrompidos por alguém que veio avisar a chegada do Nelson Santos, dono de um loteamento em Nova Flórida, e fui, com Mãe Neném, atendê-lo. No caminho, ela me falou:
        – Neiva, cuidado com o Carlos. Ele está apaixonado por você. Foi por isso que eu lhe dei o “bilhete azul”. Falei que aqui não há lugar para ele!
        – Está louca, Mãe Neném? Eu sempre soube me manter isolada e, entre eu e Carlos, nunca houve nada, sequer insinuações…
        – Bem, de qualquer forma, você já está avisada. Salve Deus!
        Eu ia falar mais, mas já estávamos diante do Nelson Santos. Meu Deus! Que clima pesado…
        À noite todos se reuniram, exceto Carlos. Eu, preocupada, fui dormir, e podia ouvir, ao longe, os cantos, os violões, etc. Foi, então, que me transportei, e me vi diante de Carlos. Ouvi que dizia:
        – Neiva, se você for real, me ouça! Gostaria de ter coragem para lhe dizer tudo o que sinto, pessoalmente. Porém, não quero lhe tirar dessa missão e, além disso, sei que também não me aceita. Vou embora amanhã!
        Não quis ouvir mais nada, e voltei para o corpo. Meu coração batia descompassadamente. Olhei a hora – 3 horas da madrugada! Bastava que eu desse vinte passos e estaria com ele, e tudo estaria certo. A certeza de voltar a ficar sozinha era terrível. Pensei: Mais um que irei sacrificar? Eu somente queria alguém que me ajudasse… Seriam reais os meus pensamentos? Como poderia sacrificar alguém? Fiquei ali, petrificada. Coisas que haviam sido tão simples para mim, hoje se complicavam tanto…
        Adormeci, finalmente, e fui ter com Humahã, que me perguntou:[link:98]
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        – Neiva, você está muito confusa?
        – Não! – respondi.
        – Neiva, o amor à Doutrina de Jesus compreende todos os sentimentos, porque todo o trabalho sincero nos eleva a alma e traz as bênçãos das lágrimas consoladoras.
        – Sim, Mestre! Vim vencer a minha tristeza, o fracasso, a frustração, o desejo de esperança de minha própria vida, a falta ou a perda de um bem ou de um mal, a minha existência, a insegurança que me mata, meu Mestre.
        – É verdade, Neiva. Pela primeira vez a vejo serena e dolorida, sentindo a certeza de ser amada e a insegurança de amar alguém. Você sofre muito, ainda traz profundas cicatrizes, e o seu espírito honesto não permitiria que fizesse sofrer alguém o que está sofrendo.
        – Sim, Mestre, você me confunde!
        – Não, filha, não é esse o companheiro esperado. Eu lhe falei: vinte anos sem irmão!
        Voltei ao corpo meio decepcionada, mas deixei que as coisas fossem acontecendo normalmente, me mantendo sob controle. Porém, sentia que os acontecimentos iam matando o pouco das ilusões que me restavam. Recordo o que dizia Humahã:
        – Cuidado, filha! Se persistir em viver dentro do ontem, é lógico o seu temor pelo amanhã. Será como aquele que deixou os caminhos que lhe traziam afeto e chorou a tragédia da solidão. Choram os que não sabem perdoar as faltas alheias. Sofre, também, quem perdoa quando está sofrido. O Homem sofrido não é o mesmo quando está tranquilo.…
        Um dia, fiquei ouvindo as crianças e os adultos – Carmem Lúcia, Marlizinha, Marlene (uma linda e jovem médium, de quem tenho grande saudade), Jair, Mãe Neném, Isidoro, Paulo, e tantos outros. Foi a hora em que decidi partir. Saudades, tristezas, jugos… Finalmente, eu percebi que era demais ali e, ignorando minha tristeza, fui embora.
        Parti para Taguatinga, onde fui me adaptar a um novo mundo.
        Fiquei lá por cinco anos, e cheguei aqui, para um recomeço, na continuação desta jornada, no Vale do Amanhecer, em novembro de 1969.
        Salve Deus!

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