ÁUDIO - HISTÓRIA DO FIDALGO (POR HUMAHÃ)
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HISTÓRIA DO FIDALGO, POR HUMARAM - FAIXA 1
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Salve Deus!
Vozinha ta aqui ó… Vozinha não brinca não.
– Não… Não…
Eu brinco sim meu filho, eu brinco sim!
Mas era um homem… quando eu cheguei lá, cheguei cansadíssima, Humahã falou: “Você é uma menina nova, porque tá cansada? Se eu, velho, aqui há tanto tempo, não tenho essa canseira? Por que quê você tá cansada?”
Falei: – Oh eu tô cansada mesmo, tô cansada e tô abusada!
Aí ele disse assim, falou: “fia?”
– Fala.
– Falando nisso, eu vou lhe dizer um caso muito importante, vou te contar:
Aqui na Índia existiam os fidalgos, que absolutamente eles não aceitavam a religião. Viviam por ai em festas, em jogos, mas eles não… quando chegavam esses, esses turistas, então, eles, eles tiravam de renda… Eram fidalgos assim, vendiam coisas, e tal.
Mas esse nosso… (a quina sai agora), era um rapaz muito bom e não aceitava absolutamente, ele não aceitava a religião, mas era um homem muito bom que tava se perdendo, entendeu?… e… e as suas paixões, ele tinha uma série de coisas erradas, mas também não gostava. E ele vivia se queixando de cansado, vivia sempre cansado. Então ele vai saber, tem um… vai saber de alguma coisa… começa a caminhar, e vai perguntar um daqueles filósofos que tava… ia com as bagagens nas costas… ele perguntou pra ele: “Oh, me explica aqui uma coisa!… pra onde o senhor vai?”
Falou ó: “Eu vou lá ver o meu filho santo. Eu tenho um filho, bonito como o senhor, e é santo!”
Ele falou, ele uai! Já ouvia falar sobre o santo… ele foi, e o velhinho tava com aquela porção de coisas pra levar pro filho santo.
Ele disse: “Eu queria saber de uma coisa do senhor.”
E o velho né, será? Aqueles profetas que ficavam ali né?
Então, o velho falou pra ele, o velho disse pra ele: “Não queira saber da sua vida, caminhe com a cabeça, sinta nas pernas.”
Ele falou uai: “Caminha com a cabeça?”
– Deixa as suas pernas, caminha com a cabeça que você vai longe!
Ele falou assim, umas coisas estranhas, sabe?
E ele tava com uma paixão por uma moça que morava longe, foi embora pra longe, e que ele não podia ir porque, inclusive, os pais dela eram, eram religiosos e não aceitava ele. E ele não queria quebrar a natureza dele, pra não se fazer de mole né? Então tava sofrendo.
– Me diga uma coisa, se eu posso encontrar com fulana? Se ela ainda vai aparecer aqui, se eu posso ir, se o pai dela vai me aceitar como eu sou, porque eu não posso ceder, eu não posso ceder à natureza dele. Eu tenho a minha personalidade e eu não vou absolutamente ser, ser… (um religioso), um religioso porque eles querem, eu não gosto, não entra em mim.
E o velho falou: “Que pena, os jovens ficam tão bonitos quando são religiosos!”
Ele falou: “Por acaso eu tô feio?”
Falou: “Não, mas tem uma vitalidade, é diferente.”
HISTÓRIA DO FIDALGO, POR HUMARAM - FAIXA 2
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E o velho começou a falar com ele, falou: “O quê que você sente?”
– Sinto uma dor nas pernas, tão grande. Se eu não sentisse eu ia atrás…
Né era a moça que foi embora por ele, até… e tal, tal.
Ele falou assim olha: “O cê não tem pra onde ir né?”
Falou: “Não, não tenho pra onde ir.”
– Tem uma casa grande ali, não quer chamar seu filho lá?
– Ah não, vamos lá onde tá meu filho!
Falou: “Não, me dá uma bolsa dessa, deixa eu levar.”
E botou a bolsa nas costas.
– Mas eu não vou aguentar, vou até certo ponha de volta.
– Tá certo. Mas se você ver o meu filho, você vai ficar muito encantado, porque eu tenho um filho santo! O meu filho é santo, meu filho, basta chegar perto dele as pessoas são curadas. E ele, ele está lá debaixo de uma árvore, ele não tem casa, tá lá debaixo de uma árvore e tem muitas pessoas ali em volta dele, pessoas que se curam, que vão, que voltam, ele vai subindo até chegar…
Você vê como é que é, né Mario, ninguém nunca me disse isso.
– Até chegar lá em cima onde está o Lhama, e lá ele vai, ele faz os seus Mantras, até ele fazer cento e oito Mantras.
Ai o rapaz falou: “O quê que é isso?”
Eu também falei: “O quê que é isso de mantra?”
Eu não conhecia né?
– São os cento e oito Mantras de Koatay!
Ele falava pra mim.
– Sei lá o quê que é isso! É!
Isso é eu com Humahã né?
Então lá se foi ele, caminhando, entendeu? Lá se foi ele caminhando. E daí um pouquinho o velho torcia o pé e: “Me dá mais essa sacola.”
E botava aquelas bruacas nas costas dele sabem? Daí um pouquinho o velho tornava a cair ele pegava e: “Me dá aqui.”
E botava outra bruaca nas costas dele.
– Mas onde é que esse velho leva tanta bruaca?
Ele faz assim, então quando ele falava, ele pensava o velho falava, falava.
– Mas como é que eu fui cair numa esparrela hoje? Sai daqui, deixar a minha casa, o meu conforto, e vir pra aqui, e vir acompanhar esse velho que o filho é santo, santo! Ah, que santo!
E riu né?
Aí o velho sorriu e falou: “Você vai ver como ele é santo!”
Ai ele ficou com muita vergonha e andou mais um pouquinho, falou, o velho tornou a entortar o pé: “Me dá mais uma sacola!”
E foi levando aquelas bruacas tudo nas costas dele né? E ele lá com o velho, e o velho estava com a mesma quantidade de sacolas.
– É seu filho come muito, ele é santo né?
Ai ele falou, pensava assim: “É o tal do filho dele é santo e come muito né?”
Ele virava: “Come, ele come muito, mas ele dá também pros outros. Aqueles que não tem o que comer.”
Ele ficava muito sem graça, e: “Será que ele tá me ouvindo? Ou se é coincidência? Então, vamos conversar, pra poder gastar o dia.”
E o velho sorria e falava: “É, tá, né?”
(Mestre Tumuchy) – E tome bruaca nas costas.
– E tome bruaca.
E quando ele chegou, lá está ele! Mas quando o velho viu o filho, a satisfação dele foi tão grande, tão grande, que ali já começou, que ali já começou a fazer bem pra ele. O pai dele vivia xingando, maldizendo de ter um filho tão ruim, tão preguiçoso, né?… e ele… caminharam, caminharam muito mesmo, até que chegaram lá. Nisso o rapaz, o homem santo tava falando com as pessoas lá, aí nem virou pra ver aqueles que estavam ali, e: “Mas que sujeito preguiçoso! Ó, que sujeito sem educação, isso deve ser igual ao pai!”
HISTÓRIA DO FIDALGO, POR HUMARAM - FAIXA 3
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Aí o pai tava olhando pra ele e rindo né? Aí ele olhou pros dois, ah que vergonha que teve né? Aí ele, os dois olharam pra ele assim, num né?
E ele, eles riram, e ele assim.
Só pensando.
– Aqui nós vivemos no pensamento. Eu não falei pra você que trouxesse, que caminhasse com as pernas?
Ai ele chegou lá né…
(Mestre Tumuchy) – Caminhasse com a cabeça.
– Oh, caminhasse com a cabeça!
Aí ele ficou sem graça né?
– Vamos ver o que vai dar isso ai.
De repente foi botando as bruacas lá e o rapaz saiu de lá, com aquele bigodinho fino né? Aquelas mãos que parecia que não tinha, que já tava morto, foi onde ele tava, chegou lá e agradeceu, foi ajoelhando nos pés dele e beijando as mãos dele. Oh, ele ficou muito sem graça, ficou muito sem graça e viu que o homem não passava de um homem santo mesmo, ficou sem graça.
Ele viu que o homem não tinha olhado pra ninguém e virou pra ele…
(Mestre…) – Cura.
Falou pra ele: “As suas pernas não vão doer mais, tá doendo?”
(Mestre…) – É simples assim tia? Que é cura?
– Foi, esticou, esticou.
(Mestre…) – Tá!
As pernas não estavam doendo mais né? Não estava doendo mais, e ele pegou todas aquelas bruacas lá, nas costas, né?
Aí começou se preocupar que tava longe e que tinha que voltar e que tinha que comer, e que aquela comida não dava pra eles, e que ele não era acostumado a viver naquela imundície.
Aí, quando viu o homem santo saiu de lá né.
– Falou: Hum! Pega essa pessoa tira daqui e vai lhe arrumar água, vai lhe arrumar tudo… não se preocupe, nós aqui temo costume de ser porco.
Ô, mais esse moço ficou sem graça!
Higienizar bem né? Antes dos outros, um tinha estado aqui, e ele, e outras pessoas, (…) a sujeitar outras pessoas.
E pegou a mão dele, com aquela mão, aquela mão fina assim, assim de gente que morreu, e ele achou foi bom, começou a beijar a mão do homem, de tanta humildade.
Mas, deu pior! Ele tava beijando a mão, tava chegando, lá estava a moça mais o pai dela, que tava se tratando, e a moça tava chorando desesperada por causa do noivo, que o pai não deixava casar porque não era um homem religioso, e ele tava ali na maior “lambe-lambe” na mão do mocinho, não é?
Então ele, nisso, o velho desocupado, alegre, eufórico já: “Vamos embora, vamos de volta, volta, vamos embora. Não, vamos embora, vamos embora.”
Porque ele prometeu, o velho: “Nós chegou lá, o senhor larga pra trás e venha me trazer! Eu não posso ficar nem um minuto!”
Ai o velho falou: “Eu garanto pra você, te juro que chegando lá, você vai ver muita novidade, é terra santa, essas terras, a terra que tem um homem santo, ela tem uma porção de coisas simbólicas, coisas diferentes das coisas que você viu lá atrás. Deus escolhe as boas coisas, entendeu? E um homem tão bom como você.”
Então ele espera né? E a moça tá assim perto e ele faz assim: “Psiu, psiu.”
Pra ver se a moça ouvia ele, sabe? E a moça entretida lá sabe? Sofrendo, assim, recebendo aqueles passes, e ele: “Psiu!”
E a moça nem via. E o velho: “Vamos embora, vamos embora, você tá demorando muito, já passou da hora, vamos!”
E ele: “Ah, por favor, espera…”
– Não, quando se diz uma coisa aqui, a gente cumpre! A gente diz alguma coisa a gente cumpre! Deus não gosta de mentiroso! E eu não sou, eu não falei pra você, eu vou com você, a gente, aqui é um sacerdócio, um sacerdote, e a gente tem que cumprir com a palavra que faz!
Vamos, vamos, vamos!
HISTÓRIA DO FIDALGO, POR HUMARAM - FAIXA 4
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E o velho não dava sossego pra ele, e a moça pra lá se tratando né? E ele: “Ah, ah!” (limpando a garganta).
E o velho: “O que foi, tá doendo? Tá tossindo, tá engasgado?”
E ele: “Ah!” (limpando a garganta).
Pra ver se a moça escutava né? Mas, e o velho, se fingindo de bobo sabe: “Você tá engasgado? Foi alguma coisa que você comeu?”
E ele: “Ah!” (limpando a garganta).
E a moça assim não preocupava com ele… E ele doidinho pra ver né? E o homem santo entrou ali no meio daquele povo, e tinha um caramanchão, umas coisas, e ficaram por lá. E o velho ficava: “Vamos, vamos, vamos embora, a gente tem que cumprir o que a gente fala, vamos, vamos se embora!”
E não deu sossego a ele.
Ele falou:
– Eu não gostei daqui não! Isso aqui não tem lugar pra se tomar banho, isso aqui não tem nada!
E ele gritava: “Eu quero ficar, eu quero ficar!”
– E também eu já deixei mesmo tudo pronto de lá, pra chegar e voltar, por sua causa! Não trouxe nada que é meu pra poder te trazer! Se eu viesse sozinho eu vinha preparado, mas você não quis!
E ele gritou: “Homem santo, homem santo, eu acredito em você! Me cura aqui, eu tô doente! Homem santo!”
Ai a moça olhou pra trás né? Aí o homem santo veio, ele ajoelhou nos pés do homem santo.
– Seu pai quer me levar embora daqui, mas eu quero ficar!
Ele falou: “Não meu filho, ainda não é seu lugar aqui. Aqui não é seu lugar. Vá e amanhã você volta pra trazer mais coisas.”
Então ele virava pro velho, beijando o velho: “Me deixa eu trazer, me deixa trazer as coisas, deixa!”
Aí ele, no outro dia, ele vai se embora.
E eu lá sentada, esperando. Às vezes tinha falta de ar, às vezes preocupava com meu corpo, e ele: “Olha filha, não se preocupe não!”
E eu lembrava que eu pensava, era igual ao homem santo né? Ele pensava e o velho, que o filho era um santo.
Aí ele vai embora. A moça virou, o homem santo virou, ele beijou os pés, pelejou, o homem santo disse tudo aquilo né? Que ali não era a hora dele ali né? Ele vai embora, aí ele vai pra casa.
E aquela noite ele não dormiu, então vai bater na porta do velho, falou: “Mestre, o quê que a gente faz pra ser um homem santo?”
– Ah, é preciso ter um bom coração, ter vocação!
Pelo que me disse, você fala: “Eu não posso ser religioso, eu não tenho vocação… Você não tem vocação!”
– Tenho, eu tenho vocação!
Aí vai aquela peleja né? Quando foi cedinho…
– Vai dormir, vai dormir! Deixa eu dormir ai…
Aí ele foi lá dormir, a velha disse: “Entre meu filho.”
E deitou ele lá num cantinho, naquelas almofadas que eles dormiam. Aí ele foi dormiu lá no cantinho.
Quando foi cedo ele bateu na portinha do velho, falou: “Oh Pai!”
Já chamou o homem de Pai.
– Oh Pai, vamos levar as coisas do homem santo, porque a essas alturas aquele povo já comeu tudo, vamos levar!
E eu escutando a filosofia dele. Então, o velho disse: “Você quer mesmo, você quer mesmo se encaminhar, quer ir pra lá, pra onde está o homem santo?”
Ele falou: “Quero, de todo o meu coração!”
Ele falou: “Então você vai! Só…
{acabou um lado da fita}
“… Eu estou feliz de ver você aqui, eu quero lhe dar a mão da minha filha em casamento.”
HISTÓRIA DO FIDALGO, POR HUMARAM - FAIXA 5
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Aí aquela, aquele preparo, tudo né? E ele teve que sair dali pra atender o velho e o casamento dele né? Mas, com aquela dor no coração. Agora, já era ele que sofria em deixar o homem santo.
Na hora da partida, o homem santo juntou todos aqueles seus, seus sacerdotes ali, tudo ali né?
E disse: “Olha, você sabe por quê que você veio aqui? Porque nós somos velhos contemporâneos, você já foi um homem muito decepcionado e hoje você conheceu a verdade, esse lugar não é seu.”
E preparou ele, e disse a ele que esse senhor rico, e tal, e tal, conta toda aquela finura daquele trabalho dele, e que ele, ele foi um homem santo, e ele era um espírito de luz.
Quando tá tudo pronto, o velho (pulou alguma coisa aí?), Tá tudo pronto, pra ele ir em missão, ele olha assim pra missão, e sente saudade daquele velhinho. E o velhinho tava lá né? Perdeu o companheiro de caminhar pra carregar comida né?
Então, (Ninfa: “pai do homem santo”), é… aí ele olha assim pra trás, olha assim, viu a moça tão insignificante, sabe? E começou a ter aquela visão: A moça que ia injuriá-lo, a moça que ia viver sempre cobrando alguma coisa que ele não devia, e viu aquele velhinho sozinho, e que aquele velhinho era seu próprio pai. Então ele disse: “Vão na frente.”
Ele pediu a Deus que desse força, que ele pudesse continuar a missão dele, aí ele lá com a moça vai embora muito sentida. Ele apenas sentia saudades, mas que não podia, a dor da missão dele, ele não podia deixar, não ia mais deixar o homem santo. Então ele volta e abraça o velhinho, e volta pra missão dele.
– O amanto que sabe dele.
– Essa, essa eu vi, eu vi, eu passei, ele era marido da Carmem Lúcia, dos meus…dos meus bônus.
(Mestre) – Luiz _____?
Luiz, é, através dos meus olhos… Amanto… Ô, Humahã!
Mas foi tão linda essa história!
Então ele olha, ficou olhando o velhinho lá, ele não resistiu. Vocês veem que quando é verdade, é verdade. Quando não é, ninguém engana ninguém!
E ele vai com a moça e para e olha assim, tão insignificante aquelas coisas, aquelas riquezas dela, aquelas joias, e aqueles dois lá no mato cuidando daquele mundo gente.
(Ninfa) – Num é, que quer dizer que a missão não é imposta, que é de ser de servir, (Tia: – É!... onde cê foi convidado), dedicar a missão insistente para…
Porque a gente tem saudade não é? A gente tem saudade da missão. A Vozinha andou por essa missão… prá ela vim, pra fala (…)…
(Ninfa) – Pediu pra falar num é?
Tá vedo?
(Outra Ninfa) – E mudou tudo.
E é assim mesmo né Beto?
A gente deixa às vezes uma coisa que a gente gosta, por coisas mais de valor, que os valores mudam, do… (…)
Pois é meu filho se fizer é desafio.
(Mestre…) – Os homens são sempre os mesmos o que muda são os corações, que muda é a gente.
O que muda é os valores.
(Mestre…) – Os valores são sempre os mesmos.
{Restante não transcrito, o diálogo foge ao contexto}